Um ilustre médico paraibano que serviu ao Maranhão

Contenção, mitigação e supressão

Contenção, mitigação e supressão

José Márcio Soares Leite

Em meio à pandemia da Covid-19, todas as autoridades em saúde pública e os profissionais de saúde estão focados em achatar a curva de contágio do vírus, para evitar o colapso da rede de serviços de saúde pública e privada e proteger, principalmente, os grupos de risco. Essas medidas de prevenção que vem sendo adotadas compreendem a contenção, a mitigação e a supressão. 

As medidas de contenção são adotadas no início de uma epidemia para evitar o contágio da maioria da população, buscando erradicar o vírus. Nessa fase, os principais atos são o rastreamento, por meio de testes para a doença, e o isolamento. A Coreia do Sul conseguiu controlar o quadro da doença por meio da contenção. O limite da medida de contenção é quando o vírus se instala na sociedade e as autoridades perdem o controle do rastreamento. Aí a contenção não funciona mais.

Na fase da mitigação, sabe-se que não será possível evitar todos os contágios. Assim, o objetivo é diminuir o avanço da pandemia, sem necessariamente detê-la, com medidas moderadas. Busca-se, então, evitar que o vírus atinja os grupos de risco: idosos, diabéticos ou hipertensos. Nesse estágio, algumas das ações são: suspender aulas, fechar lojas e restaurantes, cancelar eventos esportivos, congressos, shows e espetáculos. É o que está acontecendo no Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo.

De forma mais radical, a supressão busca romper as cadeias de transmissão do vírus, com o distanciamento social de toda a população, como fez a China. Nesse caso, a quarentena é obrigatória e os testes para diagnóstico da Covid-19 devem feitos em massa. Também acontece o fechamento de escolas e comércios.

No momento em que buscamos referências no exterior sobre o conduzir desse processo no Brasil, é importante sabermos que a Alemanha iniciou neste 20 de abril a flexibilização gradual da quarentena com a abertura de algumas lojas de até 800 m2 de área, além de escolas secundárias e igrejas em alguns estados alemães. Esse retorno gradual às atividades, sequencialmente se processou em três etapas. A primeira etapa foi possível alcançar graças aos investimentos de longo prazo já feitos. O país tem uma das maiores taxas de leitos de UTI por habitante do mundo, totalizando 40 mil leitos, com a chegada da pandemia, os quais são monitorados, permitindo a centralização da regulação médica e por conseguinte a informação sistemática de onde existem vagas em todo o país. 

Na segunda etapa, para reduzir o ritmo de infecções, o Governo alemão investiu pesado em testes diagnósticos. Foram 1,7 milhão de testes feitos até o momento. Os testes permitem às autoridades saber onde estão as cadeias de infecção, em que região, em que cidade ou parte da cidade. Quando o teste é positivo, as autoridades fazem o rastreamento de todos que entraram em contato com essa pessoa. 

A terceira etapa compreende uma medida de longo prazo, pois considerando que ainda não existe uma vacina nem um tratamento específico comprovadamente eficaz para a cura da Covid-19, eles estão estudando a imunidade do corpo humano, por meio de testes que objetivam mensurar que percentual da população desenvolveu anticorpos contra a doença.

Creio que essa sequência de medidas adotadas na Alemanha para o controle do vírus sars-cov-2, foi importante e viável do ponto de vista epidemiológico e social e espero que experiências como estas sejam aplicadas em outros países como o Brasil.

Médico. Professor Doutor em Ciências da Saúde. Coordenador do Curso de Medicina do UNICEUMA. Presidente da Academia Maranhense de Medicina e  Membro da AMC, do IHGM, da APLAC, da SBHM e da FBAM. 

Jornal O Estado do Maranhão, São Luís 09 e 10 de maio de 2020

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Para Onde Caminha O Sus

Para Onde Caminha O Sus

José Márcio Soares Leite

O Sistema Único de Saúde (SUS) acaba de completar 31 anos. A Constituição Federal de 1988, contudo, ao instituí-lo, aprovou as diretrizes de um sistema que não teve condições materiais para sua efetivação plena. Embora a busca pela universalidade da atenção à saúde tenha sido um dos principais fatores fomentadores da expansão do SUS, o maior impacto na saúde pública vem sendo causado pelo Programa Saúde da Família, na atenção básica, onde conseguimos avanços em indicadores importantes, como a mortalidade infantil. Entretanto, não logramos o mesmo êxito no que pertine à atenção secundária e à terciária, capazes de tornar resolutivos os casos clínicos e/ou cirúrgicos referenciados pela atenção primária em saúde, ocasionando, por exemplo, altas taxas de mortalidade materna e uma grande desigualdade na área hospitalar especializada.

Um estudo inédito, liderado por Harvard e elaborado por 12 universidades e instituições, a exemplo da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), intitulado “Sistema de Saúde Unificado do Brasil: os primeiros 30 anos e as perspectivas para o futuro”, publicado na revista especializada “Lancet”, mapeou avanços e fragilidades da saúde pública brasileira, por meio de quatro indicadores básicos de saúde: índice de mortalidade infantil, cobertura pré-natal, expansão do Programa Saúde da Família e mortalidade por doenças crônico degenerativas, com ênfase nas cardiovasculares.

Segundo esse estudo, o Brasil tende não só a não alcançar as metas de saúde da Organização das Nações Unidas (ONU) para 2030, como tende a uma regressão nos indicadores analisados, caso persistam os valores repassados para o custeio do SUS pelo Governo Federal e a retração, por alguns estados, dos gastos em saúde. Situação ainda pior ocorrerá nos municípios mais dependentes desses recursos, pois alguns já vem realizando gastos com a saúde correspondentes a 25% ou mais de sua receita líquida, quando seriam obrigados pela Emenda Constitucional 29/2000 a contribuírem com 15%.

Se formos comparar com outros países, o percentual do Produto Interno Bruto (PIB) utilizado em políticas de saúde no Brasil não é pouco. Mas o que chama a atenção é a baixa proporção do dinheiro público: 56% dos gastos com saúde são privados, que atendem a 25% da população, contra 44% do público, a rigor destinado a todos. Ou seja, o Brasil é o único país com um sistema universal público como é o SUS , em que o gasto privado é maior e não se criou um mecanismo de regulação entre os setores privado e público.

A conclusão da pesquisa é que, “Recursos para saúde existem, mas no Brasil eles são desproporcionais e mal alocados”, explica o sanitarista Adriano Massuda, um dos autores do estudo e pesquisador da Harvard T.H. A Chan  School of Public Health.

Como ex gestor da saúde, acredito que seja o momento de um novo pacto federativo no SUS, objetivando uma correção de rumo, uma nova perfilização clínica nas linhas de cuidado, definidas por níveis de atenção à saúde, evitando-se o mais do mesmo e a superposição de ações de saúde. Um novo caminhar para o SUS, que atende 150 milhões de brasileiros, de modo a evitar-se o sacrifício de muitas vidas.

Médico. Professor Doutor da Pós Graduação do UNICEUMA. Presidente da Academia Maranhense de Medicina e  Membro da AMC, do IHGM, da APLAC, da SBHM e da FBAM. Jornal O Estado do Maranhão – São Luís – MA de 02 de novembro de 2019.

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O Médico e a Política

O Médico e a Política

José Márcio Soares Leite

Perlustrando a relação dos Patronos de Cadeiras na Academia Maranhense de Medicina, que tenho a honra de presidir, constato a existência de grandes médicos maranhenses que abraçaram a política e tiveram mandatos na Câmara Municipal de São Luís, na Assembléia Legislativa, na Câmara Federal, no Senado da República, ou exerceram os cargos de Prefeito Municipal de São Luís ou de  Governador do Estado, como:Almir Parga Nina; Álvaro Serra de Castro; Antonio Henrique Leal; Antonio Jorge Dino; Achiles Farias de Lisboa; Clarindo Santiago: Carlos dos Reis Gomes Macieira; Djalma Caldas Marques; Fernando Ribamar Viana; Genésio Euvaldo de Moraes Rego; Joaquim Gomes de Sousa; José da Silva Maia; Lino Rodrigues Machado; Manuel Bernardino da Costa Rodrigues; Marcelino Rodrigues Machado; Odilon da Silva Soares; Oswaldo da Costa Nunes Freire; Otávio Passos; Pedro Braga Filho; Pedro Neiva de Santana e Tarquínio Lopes Filho.

Fico a refletir, o que teria levado tão ilustres médicos a incursionar pela política partidária e, recorrendo às pesquisas sobre o tema, deparo-me com o livro “Medicina, Poder e Produção Intelectual: uma análise sociológica da medicina no Maranhão”, da autoria de Patricia Maria Portela Nunes, objeto de sua dissertação de Mestrado em Políticas Publicas na UFMA (UFMA-PROIN-CS 2000), que em certo trecho questiona: “o que habilitaria o médico a ocupar cargos e postos na estrutura do poder, cujo atributo exigido, não remete ao saber médico stricto sensu, isto é, àquele referente à teoria cientifica das doenças, propriamente dita ? Quais atributos são imputados ao médico, de sorte a habilitá-lo tanto aos postos políticos, quanto aos cargos burocráticos?”.

Ela mesma responde que “A metáfora do corpo humano com a sociedade parece subsistir segundo o seguinte princípio: “quem cuida bem do corpo estaria habilitado a cuidar bem da sociedade. Há certo elemento de inconsciente coletivo que acaba funcionando para legitimar o médico no domínio do poder político: enquanto a política divide, a medicina soma, onde a política separa, a medicina une e onde a política distingue, a medicina aproxima”. Cita, ainda, em sua justificativa, o médico e cientista Achiles Lisboa, para quem “a analogia entre sociedade e organismo proporciona ao médico atuar tanto em relação à integridade da saúde individual, quanto em relação à integridade do bem estar coletivo”.

Atualmente, contudo, após os avanços da biologia molecular, da imunogenética, da imunohistoquímica, da imagiologia médica e da medicina por evidência, a visão do profissional médico voltou-se exclusivamente para a medicina científica, ou seja, para  tecnificação do ato médico, em que as ciências experimentais predominam sobre as ciências naturais e humanas.

Eis a razão por que observamos que praticamente está por extinguir-se o médico-político, que inestimáveis serviços prestou às comunidades, pois no curso da relação médico-paciente e ou de suas famílias, terminava por conhecer em muitas situações a triste realidade epidemiológico-social em que elas viviam e os fatores condicionantes e/ou determinantes do processo saúde-doença. O que observamos hoje é que  essas atividades político-administrativas passaram a ser assumidas principalmente pelos bacharéis em administração, direito e economia, com conhecimentos específicos voltados para essas áreas, sendo sempre oportuno, que sejam sempre balizadas pelo mesmo espírito humanitário, que norteava as ações do médico quando no exercício de tão nobres funções.

Médico. Professor Doutor da Pós Graduação do UNICEUMA. Presidente da Academia Maranhense de Medicina e  Membro da AMC, do IHGM, da APLAC, da SBHM e da FBAM.

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Doutor Sálvio Mendonça – Memória

Doutor Sálvio Mendonça - Memória

Aldir Penha Costa Ferreira

O maranhense Sálvio de Sousa Mendonça nasceu na fazenda Juncal, município de Viana, lá pelos idos de 1892. Era filho, segundo suas próprias palavras, “de um vaqueiro, homem do campo, severo nos costumes e valente na ação, que recebeu apenas a instrução primária.”

Residiu durante algum tempo em Penalva, também na Baixada Maranhense, e depois retornou a Viana, onde recebeu as primeiras letras numa escolinha particular, em que a disciplina se impunha à base de bolos de palmatória e cocorotes (cascudos).

Mais tarde passou a residir em São Luís, tornou-se aluno do Liceu Maranhense e recebeu aulas particulares do seu conterrâneo Antônio Lopes.

No ano de 1913 seguiu para Salvador, Bahia, “onde os bondes – como em São Luís – eram puxados a burro”, e, em 1914 se matriculou na Faculdade de Medicina.

A sua permanência como estudante de medicina na capital baiana teve lances de aventura: morou em repúblicas de estudantes, enfrentou dificuldades financeiras e quase passou fome. ”Eu fiz o meu orçamento para os 15 dias que deveríamos passar … o que representava pouco mais de um tostão por dia”. E mais: “Estabeleci o meu ritmo alimentar com batata doce e banana prata… as batatas eram adquiridas por cem réis no tabuleiro da baiana ambulante… as bananas eram de menor preço, e por isso um tostão correspondia a sete bananas”.

O lado bom é que, em 1917, o estudante Sálvio Mendonça se tornou, a convite, auxiliar do famoso professor Clementino Fraga, no Hospital Santa Isabel, que era, na época, o hospital escola da Faculdade de Medicina da Bahia.

Doutorou-se em medicina no ano de 1919 e, no ano seguinte, retornou a São Luís. Foi hóspede do seu colega Hamleto Barbosa de Godóis, na Rua do Sol, no centro da cidade.

Por intermédio de Antônio Lopes conheceu e se tornou amigo de Jesus Norberto Gomes, proprietário da Farmácia Jesus, antes chamada Farmácia Galvão e depois Sanitária, na Rua do Sol, onde instalou consultório. Diz ele: “Jesus labutava dia e noite, e começou a ensaiar, na própria residência, o preparo de produtos injetáveis”. E mais: “Em 1922, estando já a Farmácia Sanitária em grande prosperidade, com seções de farmácia, drogaria e laboratório de produtos injetáveis, sugeri a Jesus que criasse também uma seção para o fabrico de águas gasosas e refrigerantes”.

Em 1925, “aceita a minha sugestão, Jesus, já instalada a farmácia em casa própria à Rua Nina Rodrigues, começou, no barracão no fundo do quintal, a fabricação de refrigerantes: Guaraná, Cola-Guaraná e Gengibre”.

Essa foi, sem dúvida, a semente do hoje famoso Guaraná Jesus.

Sálvio Mendonça foi médico do Serviço de Saúde dos Portos do Maranhão e, por ocasião de uma epidemia de peste, integrou a Comissão Federal encarregada de combatê-la. Foi também diretor do Hospital de Isolamento do Lira (bairro de São Luís). Mais tarde

se tornou Inspetor Sanitário Rural, e encarregado do Serviço de Profilaxia da Lepra e Doenças Venéreas do Maranhão. Em setembro de 1922, representou o Maranhão na Primeira Conferência Americana de Lepra, no Rio de Janeiro.

A partir de 1926, fez cursos na Alemanha e na Áustria, após o que retornou a São Luís “com grande material de consultório e, sobretudo, com a formação médica melhorada”.

Após a Revolução de 1930, Sálvio Mendonça se transferiu para o Rio de Janeiro. Trabalhou na Santa Casa de Misericórdia (Serviço do Professor Clementino Fraga) e, mediante concurso, (Docência Livre), se tornou professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil.

O dr. Sálvio Mendonça é patrono da Cadeira no 4 da Academia Vianense de Letras e da Cadeira no 39 da Academia Maranhense de Medicina.

Médico, titular da Academia Vianense de Letras e da Academia Maranhense de Medicina.

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Netto Guterres O Apóstolo

Netto Guterres, O Apóstolo.

Aldir Penha Costa Ferreira

Consta que, pelos idos de 1935, os serviços de saúde do governo do Maranhão não dispunham de leitos hospitalares destinados à assistência obstétrica. Havia apenas uma pequena maternidade mantida por um órgão filantrópico (Instituto de Proteção à Infância), e uma enfermaria (Sala Marques Rodrigues) na Santa Casa de Misericórdia. Então o diretor do Serviço de Saúde Pública, Dr. Tarquínio Lopes Filho, por sugestão do Dr. Clementino Moura, destinou alguns leitos do Hospital Geral para aquele fim. Tais leitos, localizados numa enfermaria especial (com sala de parto anexa), receberam o nome de Netto Guterres, “em homenagem ao velho médico que há pouco havia desaparecido e que relevantes serviços prestara à população de São Luís”. Mais tarde esses leitos foram incorporados à Maternidade Benedito Leite, mas isso é outra história.

Luís Alfredo Netto (ou Neto) Guterres, maranhense de Alcântara, veio ao mundo em 1880. Estudou no Liceu Maranhense, onde obteve a sua formação básica, e seguiu para o Rio de Janeiro, então capital da República, e ingressou na Faculdade de Medicina. Formou-se no ano de 1905, trabalhou na Santa Casa e foi assistente do famoso pediatra Dr. Cândido Barata Ribeiro, de quem teria recebido convite para permanecer na Capital Federal. O médico Cândido Barata Ribeiro depois se tornaria o primeiro prefeito do Rio de Janeiro.

Netto Guterres voltou para São Luís em 1906. Segundo o seu colega Clarindo Santiago, citado pelo historiador Carlos de Lima, “falou-lhe mais alto o sangue na voz celular do amor aos que lhe cercaram a infância”.

Em terras ludovicenses, logo o grande alcantarense se revelou um apóstolo da medicina. Consta que atendia a ricos e pobres, sem distinção de raça, cor ou posição social, não só no seu consultório, que funcionava num anexo de uma farmácia localizada no Canto da Viração, mas até na via pública. Mais: São Luís do Maranhão era, naquela época, uma cidade pequena e ele percorria as ruas a pé, quando saía para algum atendimento em domicílio.

Um profissional muito ativo. Foi médico do Exército Brasileiro, da polícia estadual e do serviço de pronto-socorro. Participou dos trabalhos para instalação da enfermaria de parturientes da Santa Casa de Misericórdia (Sala Marques Rodrigues) e, segundo a historiadora Maria de Lourdes Lacroix, “trabalhou exaustivamente e sem nenhuma remuneração extra para debelar as epidemias de varíola, de gripe espanhola e de peste bubônica, além de uma de carbúnculo que, veiculada pelas carnes oriundas do Matadouro Municipal, ameaçava a população consumidora”.

Segundo o historiador citado, a dedicação do Dr. Netto Guterres à prática da caridade era uma espécie de instinto. Não foi por acaso que ele se tornou conhecido como o “Médico dos Pobres”.

A sua trajetória entre nós não foi, porém, das mais longas. Vítima de uma infecção, provavelmente adquirida enquanto executava um ato cirúrgico, ele deixou o mundo físico em 1934. Eram transcorridos apenas seis anos desde a descoberta da penicilina por Sir Alexander Fleming.

Vivemos numa época em que a tecnologia vai substituindo, aos poucos, a sensibilidade do médico. Somos, porém, – e sempre seremos -seres humanos. O sofrimento faz, – e sempre fará-, parte da nossa condição animal.   Netto Guterres mostrou como lidar com essas coisas.

O antigo Largo do Hospital Geral, em São Luís do Maranhão, tem hoje o seu nome.

Médico, membro da Sociedade Maranhense de História da Medicina e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – SOBRAMES.

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Misericórdia Santa Casa

Misericórdia, Santa Casa!

José Márcio Soares Leite, AMM, IHGM, APLAC, SBHM.

A ordem das Santas Casas de Misericórdia foi instituída em Portugal, durante o reinado de D.Manuel, pela Rainha Leonor de Lancastre, no ano de 1498, seguindo orientação do seu confessor Frei Contreras. Tinha como missão: tratar os enfermos, patrocinar os presos, socorrer os necessitados e amparar os órfãos.

No Brasil, a primeira Santa Casa foi fundada por Bráz Cubas, no ano de 1543, na Capitania de São Vicente (Vila de Santos), secundada pela de Vitória-ES 1545, pela da Bahia em 1549 e a do Rio de Janeiro em 1582.

O Hospital da Santa Casa de Misericórdia do Maranhão foi instalado em 1653, por iniciativa da Irmandade da Misericórdia, dos jesuítas, tendo à frente o padre Antonio Vieira (Meireles.M.M.Dez Estudos Históricos,1994). Funcionava em imóvel alugado, pois foram em vão os esforços para a sua construção, como no-lo informa João Lisboa: “embora a obra não fosse adiante, conseguiu sempre que se dispusesse uma casa particular para receber os enfermos” (Vida do Padre Antonio Vieira. Obras de João Francisco Lisboa, p.209). Sua sede própria e definitiva, na Rua do Norte em São Luís, só foi inaugurada no dia 19 de março de 1814, 161 anos após a benemérita iniciativa do padre Vieira, com a denominação de Hospital de São José da Santa Casa de Misericórdia.

Durante todos esses anos as Santa Casas prestaram imensuráveis serviços ao Brasil, não somente de atenção à saúde, mas também de ensino nessa área.

A Santa Casa de Misericórdia do Maranhão também adotou sempre o binômio ensino/serviço, pois, em 1826, nela passaria a funcionar uma Aula de Anatomia e Cirurgia, teórica e prática, a cargo do cirurgião-mór José Maria Barreto, e, nas primeiras décadas do século XX, o médico e cirurgião francês Dr. Afonso Saulnier de Pierrelevée iniciou nesse hospital uma escola de grandes cirurgiões, em que pontificariam, depois dele, o Dr.Artur José da Silva e o Dr. Tarquínio Lopes Filho (O Bisturí de Ouro), que teve como seu assistente o Dr. Carlos dos Reis Gomes Macieira. Com a criação da Faculdade de Ciências Médicas do Maranhão em 1957, foi um dos Hospitais-Escola dessa Faculdade, até a criação do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão em 1991.

Até a primeira metade do século XX, o Hospital da Santa Casa de Misericórdia do Maranhão recebia ajuda do Estado, assim como doações de particulares. A partir do final da década de 50, todavia, e, coincidindo com sua autonomização, o Estado deixou de indicar seu Provedor, e, conseqüentemente desonerou-se da obrigação de ajudar no seu custeio. A Santa Casa teve assim, que passar a gerar sua própria receita de manutenção. Esse desafio foi enfrentado, às duras penas, durante quase meio século, em que teve como provedor o médico José Duailibe Murad, e, a participação de um grupo de ilustres profissionais de saúde e de abnegadas religiosas.

Com a promulgação da Constituição Federal de 1988 e a criação do Sistema Único de Saúde-SUS, os hospitais públicos, os filantrópicos, e os privados credenciados, passaram a ser mantidos por esse novo sistema, mediante produção de serviços, porém a tabela de preços paga pelo SUS é extremamente defasada em relação ao custo real dos procedimentos realizados, excetuando-se os de alta complexidade.

Em decorrência dessa nova política, os hospitais próprios da rede pública de serviços de saúde mantêm-se porque os governos arcam com 100% do seu custo de pessoal e nos universitários com cerca de 60% dessa despesa. Já os privados credenciados, abandonaram o SUS e migraram para os planos de saúde, restando o ônus maior para as Santas Casas, que, com seus escassos recursos, ainda custeiam 100% de seus profissionais, levando-as a uma difícil situação financeira.

Nesse contexto, é oportuno ressaltar que a Santa Casa de São Luís com seu ambulatório, suas uti’s, centro cirúrgico, seus setecentos leitos, desde que adequadamente financiada, seria capaz de suportar 50% das internações de média complexidade da capital, eliminando o congestionamento da demanda hoje existente nos “Socorrões” e contribuindo para uma atenção à saúde mais humanizada.

Voltando à história e parafraseando o médico César Augusto Marques, que no seu Dicionário Histórico e Geográfico da Província do Maranhão, escreveu um verbete_ “Misericórdia, Santa Casa”, fazemos um apelo aos gestores da saúde, para que não deixem o trabalho do padre Antonio Vieira fenecer, pois, infelizmente, ele já não está entre nós, para proferir um dos seus Sermões dominicais, em defesa dos desvalidos, que, uma vez enfermos, tanto precisam dos cuidados das Santas Casas.

Médico, Profº Doutor  em Ciências da Saúde. Publicado no jornal O Estado do Maranhão, de 18 de maio de 2008.

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Medicina e Religião

Medicina e Religião

Aymoré Alvim, AMM, ALL, APLAC.

O tema é, ao mesmo tempo, interessante e conflitante: Medicina e Religião.

Na minha concepção, a partir da leitura que faço, ambas mantêm de há muito, íntima ligação. Nasceram juntas quando das primeiras manifestações culturais do homem.

Caso nos projetemos, no tempo e no espaço, conforme orientação dos estudos paleoantropológicos, vamos verificar que a origem do homem, no continente africano, data de, aproximadamente, 5 a 4 milhões de anos.

A partir de então, o processo foi lento, gradual, mas progressivo.

Ancorado, principalmente, no volume cerebral, a partir do hominídeo Australopitheccus, passando pelo Homo habilis ou habilidoso, Homo erectus ou ergasto, iniciamos o percurso para o Homo sapiens arcaico que surgiu por volta de 800.000 anos atrás.

Em cada um destes estágios, embora não haja uma sequência lógica, os estudos conduzidos concluíram que o desenvolvimento cerebral parece estar diretamente ligado ao grau de criatividade e de percepção de mundo do homem primitivo.

O surgimento do Homo sapiens sapiens ou moderno ocorreu por volta de 120 a 100 mil anos atrás. O seu cérebro chegou ao máximo se comparado ao desenvolvimento do homem atual. Espécie como a Homo neandertalensis que por muitos anos conviveu com a anterior, embora seu volume cerebral fosse igual ou, às vezes, até maior, não apresentou, ao que se sabe, um desenvolvimento cognitivo semelhante ao do Homo sapiens sapiens.

Por volta dos 45 a 40 mil anos, em plena era do gelo, na última glaciação, os achados de relíquias concretas e renovadas, como se refere Jared Diamond, na Região de Cro-Magnon, ao sul da atual França, levaram à conclusão pelo desenvolvimento de uma população altamente desenvolvida que passou a ser identificada pelo nome da Região.

O aparecimento desse povo ocorreu de forma tão súbita que, para muitos arqueólogos, pela cultura que criou, estabeleceu um verdadeiro divisor de águas entre seus antecessores e predecessores.

Nas escavações realizadas, foi encontrada uma riqueza de material que de tão extraordinária tal evento mereceu de Jared Diamond o nome de “o grande salto para frente”. Peças de adorno, estatuetas, pontas de lanças trabalhadas em marfim, instrumentos musicais além de pinturas (rupestres) foram encontradas no interior de muitas cavernas.

Enterravam seus mortos com cerimônias e rituais que conduziram à conclusão de que esse povo tinha nítida noção da sua finitude e acreditava em outra vida após esta.

Estudos conduzidos com o objetivo de esclarecer essa brusca mudança concluem  que tais avanços se deveram a uma mutação genética ou ao crescimento do volume cerebral com gradativo aumento  do número de sinapses ou interligações em neurônios cerebrais.

As abstrações ou pensamentos abstratos que esse povo passou a desenvolver deram suporte a essas manifestações simbólicas que o levou ao entendimento de que na morte algo deixava o corpo das pessoas, o que bem mais tarde foi identificado como alma ou espírito.

Essas entidades se boas ou más, poderiam proteger ou causar males às pessoas.

Era preciso, portanto, identificar, na comunidade, indivíduos que possuíssem  o dom de se comunicar com os espíritos para que os invocando pedissem proteção contra os maus ou a cura das doenças, o que faziam usando magia e exorcismos. Eram eles os futuros pajés, xamãs, feiticeiros, sacerdotes curandeiros ou médicos, Nasciam, assim, ao mesmo tempo, a medicina arte e a religião.

Desde o inicio das civilizações que já estavam bem definidas as funções dos curandeiros e dos sacerdotes embora certos estados patológicos como a melancolia, depressão, loucura, estados convulsivos, cujas origens eram desconhecidas, foram atribuídos a castigos das divindades ou possessão de maus espíritos. Nesses casos, a intervenção era dos sacerdotes. Era a interdependência da Medicina com a Religião.

Tais concepções foram bem trabalhadas nas escolas gregas pelos filósofos, principalmente, em Cós, com Hipócrates. Para ele esses estados não dependiam dos humores divinos, mas de desequilíbrios das pessoas com o seu ambiente. Desta forma, Hipócrates começou a afastar a filosofia da religião e, consequentemente, desfazer o dualismo platônico de mente e corpo.

Na realidade, não houve, propriamente, uma separação das duas, mas uma definição de competência, sem contudo pretender acabar com a religiosidade das pessoas nem com as suas convicções religiosas e devoções aos seus deuses, santos protetores, seus orixás e seus espíritos de luz.

Atualmente, passou-se a entender que a religiosidade conduz as pessoas a uma mudança comportamental, trazendo-lhes paz interior, mais confiança que as predispõem a enfrentar suas doenças, serem mais colaborativas com o tratamento. E, assim, surgia a concepção do que chamamos espiritualidade que também é confundida, às vezes, com religiosidade, mas que por si tem importante valor na recuperação e manutenção do equilíbrio das pessoas consigo e com o ambiente em que vivem, o seu universo.

AMM, ALL, APLAC.

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Doutor Gabriel Cunha

Doutor Gabriel Cunha

Aldir Penha Costa Ferreira

Muito poderia ser dito e escrito a respeito da vida profissional de Gabriel Pereira da Cunha, pois a sua trajetória tem muitos matizes incomuns.

Em 1957, quando o arcebispo Dom José de Medeiros Delgado conseguiu finalmente fundar em nosso Estado uma faculdade de medicina, Gabriel Cunha era já um profissional consagrado. Formado em Farmácia aqui na terrinha, pós-graduado em bioquímica e hematologia nos Estados Unidos e proprietário de um dos mais conceituados laboratórios de análises clínicas do Maranhão, era de imaginar-se que ele se aquietaria no labor diário entre aparelhos de medição e tubos de ensaio. Ocorre que o estado de bem-aventurança dos maranhenses, por poder contar com tal estabelecimento de ensino ao alcance do cérebro e do coração – graças ao religioso visionário, como diria Natalino Salgado Filho -, atingiu em cheio os nossos profissionais da área da saúde, naquela fase da nossa história. A Faculdade de Medicina era -, desculpem o lugar-comum – como boa semente lançada em solo fértil. Uma promessa de grandeza. Então Gabriel Cunha, como outro maranhense famoso – Achilles Lisboa – depois de ser farmacêutico decidiu também ser médico.

Ocorreu, então, um fenômeno interessante. É que Gabriel Cunha se tornou, ao mesmo tempo, aluno e professor da mesma faculdade. De fato, a sua credencial de pós-graduado de alto nível lhe garantiu, ao lado de Lourival Bogéa (que, àquela altura, era professor da Faculdade de Farmácia e Odontologia) assumir a cadeira de Bioquímica. Passou a dar aulas para os colegas calouros que, nos anos seguintes, povoaram as fileiras discentes da medicina.

O jovem Gabriel Cunha desempenhava, porém, o duplo papel com naturalidade. Falava de hemoglobinas e bilirrubinas nas práticas de laboratório com a mesma desenvoltura com que encarava, na condição de estudante, os bate-papos das horas vagas com os colegas.

Igual comportamento se verificava quando, na condição de atleta do futsal (chama-se, na época, futebol de salão) Gabriel Cunha participava dos jogos estudantis. É que nas disputas pela bola – e nos encontrões próprios da prática do esporte – a sua privilegiada compleição física muitas vezes provocava tombos nos adversários. Era a vantagem de quem tinha maior massa corporal. Então vinha à tona, automaticamente, a índole do assumido profissional da saúde: com preocupação no olhar, ele ajudava o outro a se erguer e – como um apreensivo paizão – fazia, ali mesmo, um rápido “exame clínico-traumatológico” na sua “vítima”.

Gabriel Pereira da Cunha pertenceu à primeira turma de médicos formados pela Faculdade de Ciências Médicas do Maranhão, em 1963. Ainda não havia Universidade. Chamada Turma João XXIII, foi uma homenagem ao Santo Padre da época. Há uma placa de bronze, no prédio da Faculdade, onde estão gravados os nomes desses pioneiros.

Com correr dos anos, Gabriel Cunha prosseguiu na sua saga de médico e professor. Muito fez pelo Maranhão. Ao lado de Clementino Moura, instalou e pôs em funcionamento o primeiro Banco de Sangue de São Luís, numa dependência da Maternidade Benedito Leite, na Rua do Norte. Foi também um dos fundadores da Academia Maranhense de Medicina, ao lado de Aymoré Alvim, seu ex-aluno, e de Antônio Nilo Costa Filho, seu ex-professor.

Mais tarde, foi também Superintendente do INAMPS.

Médico, ex-professor da UFMA, membro da SOBRAMES e da Sociedade Maranhense de História da Medicina.

Rua São João, 265, Sala 402 – CEP 65010-600 
São Luís – Maranhão 
academiademedicinama@gmail.com

A Academia Maranhense de Medicina​

A Academia Maranhense de Medicina

Acad. José Márcio Soares Leite, AMM e IHGM.

A Academia Maranhense de Medicina foi fundada e instalada no dia 25/04/1988, por iniciativa de ilustres médicos maranhenses, os quais certamente buscaram inspiração na Académie Nationale de Médecine criada em 1820 pelo rei Luís XVIII da França e na Academia Nacional de Medicina, fundada sob o reinado do imperador D. Pedro I, em 30 de junho de 1829. Tornou-se parte integrante e atuante na evolução da prática da medicina no Maranhão em seus vinte e oito anos de existência.

Na história da medicina no Maranhão, destaca-se um período colonial (séculos XVII e XVIII), caracterizado pela existência de cirurgiões-barbeiros e boticários e de um Hospital Militar. Nesse período, a população foi afetada por epidemias de sarampo, varíola, peste bubônica e gripe espanhola. Em seguida, evidenciaram-se, já no período imperial (século XIX), os primeiros médicos e a instalação da Santa Casa de Misericórdia do Maranhão. O antigo Hospital Militar mudou-se para a Casa de Retiro Espiritual dos Jesuítas, na Ponta de Santo Amaro, com a denominação de Hospital Regimental (hoje Hospital Geral do Estado), e instalou-se um hospital privado, denominado Hospital Português. Destaca-se ainda nesse período a alta mortalidade por malária. No período republicano, até meados do século XX, foram construídos ou instalados em São Luís e no interior inúmeros hospitais públicos e privados.

O período da Medicina que estamos vivenciando iniciou-se na década de 70 e tem como características as especialidades médicas, os modernos equipamentos de apoio diagnóstico, os transplantes de órgãos, a terapia dita invasiva, as Unidades de Terapia Intensiva e os grandes avanços nos campos da cirurgia, da  imunogenética e da biologia molecular, avanços técnico-científicos necessários, mas que encareceram exponencialmente os tratamentos, dificultando o seu acesso pela população mais vulnerável financeiramente e sem plano de saúde, pois nem sempre são realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Avançamos muito, sem dúvida, no tratamento de doenças crônico-degenerativas, a exemplo das cardiovasculares, endócrinas, renais e das neoplasias, mas infelizmente ainda não conseguimos grandes progressos no controle das doenças emergentes como a AIDS, das endêmicas como a hanseníase, a tuberculose e a esquistossomose, das transmitidas por vetores, como ZIKA, Dengue e Chikungunya e de outras viroses como o H¹N¹ (Influenza A), em razão de implicações epidemiológico-sociais e econômicas. Em síntese, já convivemos com as doenças da “modernidade” e ainda não conseguimos deixar de coexistir com as infecto-contagiosas.

A Academia de Medicina do Maranhão, pautada nos seus ensinamentos, nos seus exemplos de sabedoria e entusiasmo, vem escrevendo a História da Medicina no Maranhão e contribuindo de forma dinâmica, por meio de seus pares, para seu aprimoramento.

Professor Doutor em Ciências da Saúde. Presidente da Academia Maranhense de Medicina.

Rua São João, 265, Sala 402 – CEP 65010-600 
São Luís – Maranhão 
academiademedicinama@gmail.com

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