Crônicas

A MEDICINA NO MARANHÃO.
Aymoré Alvim, AMM. ALL, APLAC.

Atualmente, a medicina maranhense vem se destacando, no país, pelos bons  serviços de diagnóstico e tratamento das doenças que oferece e pelos excelentes profissionais que nela operam.Atualmente, a medicina maranhense vem se destacando, no país, pelos bons  serviços de diagnóstico e tratamento das doenças que oferece e pelos excelentes profissionais que nela operam.

E o povo tem acesso a essa medicina? Por hora não. Embora pague por ela com seus impostos, o retorno é muito pouco, assaz penoso. Mas um dia, quem sabe, ele vai aprender escolher os gestores dos seus impostos e aí, tudo vai melhorar. “A Saúde é um direito de todos e um dever do Estado”. Não é isso que diz a Constituição de 1988? MO cumprimento da Constituição de um país é um privilégio dos portadores de uma boa educação e isso também nos falta. Logo…

Mas, deixemos isso pra lá. Um dia a coisa melhora e o sol brilhará para todos sem exceção. Ocorre, no entanto, que, desde os primórdios, a nossa medicina tem lutado para oferecer um serviço de qualidade, apesar dos seus altos e baixos.

Três foram os distintos períodos pelos quais passamos.. O primeiro, que vai dos tempos da pré-colonização até 1850, pode ser chamado de Mágico-Religioso – Empírico. Corresponde à medicina indígena do pajé, dos jesuítas e dos cirurgiões barbeiros.

Nesse período, uma exceção. Chegou ao Maranhão, na expedição de La Ravardière, o médico-cirurgião francês, Dr. Thomas de Lastre, formado pela Universidade de Paris com especialização em cirurgia pela Universidade de Montpellier. Permaneceu aqui no Maranhão durante a ocupação francesa, mas deixou para a posteridade a lembrança de haver sido o primeiro médico de formação acadêmica a exercer o seu ofício, no Maranhão, e, segundo Meirelles, possivelmente, no Brasil, como ainda, um exemplo de ética médica. Não obstante ser inimigos dos franceses, ele prestou toda assistência aos portugueses feridos, na batalha de Guaxenduba, tendo permanecido aqui, por mais de um ano após o retorno dos franceses, para concluir seu trabalho com aqueles cuja evolução clínica fora lenta.

O Segundo Período se estende de 1850 a 1960. Foi o Período Sanitarista iniciado pelo médico maranhense, Dr. José Silva Maia. A política de saúde voltou suas atenções à Saúde Pública, exercendo um sanitarismo excludente, quase eugênico, por segregar do meio social os leprosos em casebres atrás do atual cemitério do Gavião e depois na Colônia do Bomfim, e os loucos acorrentados em cadeias públicas e, posteriormente, na Colônia Nina Rodrigues. O saneamento público desenvolvido durante as epidemias de peste bubônica deixou muito a desejar com a destruição pelo fogo de vários casebres aqui em São Luís. Nas últimas décadas do final desse período, a Medicina Maranhense começou a receber os primeiros médicos maranhenses formados pelas Faculdades de Medicina de Salvador e Rio de Janeiro, antigos cursos de cirurgia instituídos por D. João VII, logo  ao chegar ao Brasil, em 1808. 

O terceiro ou da promoção social e cientifico, iniciou, em 1960, com uma medicina social também excludente, onde pontificaram os Institutos de Pensão e Assistência deixando a grande maioria da população sem uma assistência médica de qualidade. Posteriormente, a partir de 1988, com a nova Constituição, foi promovida a cobertura universal de assistência médica, para toda a população, universalização, sem distinção, equidade, após a implantação do SUS. Destaque-se, também, nesse período, a sua parte  Científica ou atual com os transplantes de órgãos, uso do laser em cirurgias e a utilização no diagnóstico e tratamento dos recursos da Genética.

Neste período, surgiram as Universidades aqui no Maranhão com seus cursos de Medicina que inestimáveis trabalhos e oportunidades têm propiciado à nossa população. Desta forma, presto aqui a minha homenagem a São Luís, na data que completa  405 anos da sua fundação.

O APICUM, A RUA E O PIONEIRO
ALDIR PENHA COSTA FERREIRA

Um geógrafo define apicum como “uma zona de solo geralmente arenosa, ensolarada, desprovida de cobertura vegetal ou abrigando uma vegetação herbácea e aparentemente desprovida de fauna, apesar de estar cercada por um ecossistema pululante de vida”.

O Dicionário Aurélio, por outro lado, registra que apicum designa “um brejo de água salgada, à borda do mar”. O termo deriva de apecu, que em tupi significa “língua de areia ou coroa de areia”, mas em algumas regiões é conhecido simplesmente como “salgado”.

Sabe-se que apicum é uma zona de transição entre o manguezal e a terra firme, ou ainda “um tipo particular de manguezal herbáceo”.  

São Luís do Maranhão, que é uma ilha oceânica, tem uma área chamada apicum. Consta que, em tempos idos, foi uma propriedade conhecida como Quinta do Apicum, ou Apicum das Quinas, “em virtude de darem para ela os fundos de outras quintas”, entre as quais a do Barão, posteriormente ocupada pelo Colégio Maranhense (Irmãos Maristas), e a do Monteiro, onde foi construído o Hospital Português, pela Sociedade Humanitária 1º de Dezembro.

Segundo a professora Maria de Lourdes Lacroix, “até meados do século XIX São Luís não dispunha de água canalizada”. O abastecimento, realizado por meio da coleta em rios, riachos, bicas, fontes e poços, era precário e, principalmente, muito trabalhoso. As fontes – havia mais de uma vintena delas – minoravam as distâncias, aliviavam o perigo da coleta em rios de águas potencialmente contaminadas, mas estavam longe de ser a solução do problema.      

Consta que em 1827 o major engenheiro André Andrade Braga aproveitou algumas nascentes existentes na área e mandou construir a Fonte do Apicum, com seis bicas e um poço, chamado Poço do Apicum, mais ou menos à distância de 100 braças , segundo o professor Mário Meireles, citando César Marques, e, em 1855, por iniciativa do governo, tendo à frente o engenheiro Raimundo Teixeira Mendes, criou-se a Companhia de Águas do Rio Anil, que distribuiu chafarizes pela cidade. Foi um empreendimento louvável, mas aí aconteceu a explícita oposição da famosa Ana Jansen, que tinha à sua disposição um batalhão de escravos aguadeiros – vendedores de água de porta em porta – e a empresa foi à falência. Tudo voltou, então, ao ponto zero.

O tempo correu e o ludovicense ainda hoje sofre as agruras do secular problema da falta d’água. A empresa responsável, sempre asfixiada por dificuldades, não conseguiu ainda cumprir a sua missão. Os projetos e as obras continuam, até este final de ano, empacados como animais teimosos. O Apicum, porém, progrediu. Hoje é uma área nobre da cidade. É um bairro onde há ruas asfaltadas, belas residências, hospitais, clínicas médicas e repartições públicas. Os escritórios da Fundação Nacional de Saúde, a famosa Funasa, por exemplo, estão lá.

Na área está também, como prova de que a memória continua viva, a Rua do Apicum – ou Travessa do Apicum – no passado chamada Rua da Ingazeira ou Rua do Apicum da Quinta. É a atual Rua Melvin Jones, uma homenagem ao fundador do Lions Clube Internacional, em Dallas, Texas, em 1917.

Uma pequena placa, fixada numa parede à esquerda de quem sobe a mão única, faz sentir que em sua simplicidade está a influência do mestre pioneiro dos Clubes de Lions no Maranhão, o médico e professor Clementino Moura, de saudosa memória.

 

Médico, membro da Sociedade Maranhense de História da Medicina e da Academia Vianense de letras. Ex-professor da UFMA.    

Rua São João, 265, Sala 402 – CEP 65010-600 
São Luís – Maranhão 
academiademedicinama@gmail.com