Doutor Gabriel Cunha

Aldir Penha Costa Ferreira

Muito poderia ser dito e escrito a respeito da vida profissional de Gabriel Pereira da Cunha, pois a sua trajetória tem muitos matizes incomuns.

Em 1957, quando o arcebispo Dom José de Medeiros Delgado conseguiu finalmente fundar em nosso Estado uma faculdade de medicina, Gabriel Cunha era já um profissional consagrado. Formado em Farmácia aqui na terrinha, pós-graduado em bioquímica e hematologia nos Estados Unidos e proprietário de um dos mais conceituados laboratórios de análises clínicas do Maranhão, era de imaginar-se que ele se aquietaria no labor diário entre aparelhos de medição e tubos de ensaio. Ocorre que o estado de bem-aventurança dos maranhenses, por poder contar com tal estabelecimento de ensino ao alcance do cérebro e do coração – graças ao religioso visionário, como diria Natalino Salgado Filho -, atingiu em cheio os nossos profissionais da área da saúde, naquela fase da nossa história. A Faculdade de Medicina era -, desculpem o lugar-comum – como boa semente lançada em solo fértil. Uma promessa de grandeza. Então Gabriel Cunha, como outro maranhense famoso – Achilles Lisboa – depois de ser farmacêutico decidiu também ser médico.

Ocorreu, então, um fenômeno interessante. É que Gabriel Cunha se tornou, ao mesmo tempo, aluno e professor da mesma faculdade. De fato, a sua credencial de pós-graduado de alto nível lhe garantiu, ao lado de Lourival Bogéa (que, àquela altura, era professor da Faculdade de Farmácia e Odontologia) assumir a cadeira de Bioquímica. Passou a dar aulas para os colegas calouros que, nos anos seguintes, povoaram as fileiras discentes da medicina.

O jovem Gabriel Cunha desempenhava, porém, o duplo papel com naturalidade. Falava de hemoglobinas e bilirrubinas nas práticas de laboratório com a mesma desenvoltura com que encarava, na condição de estudante, os bate-papos das horas vagas com os colegas.

Igual comportamento se verificava quando, na condição de atleta do futsal (chama-se, na época, futebol de salão) Gabriel Cunha participava dos jogos estudantis. É que nas disputas pela bola – e nos encontrões próprios da prática do esporte – a sua privilegiada compleição física muitas vezes provocava tombos nos adversários. Era a vantagem de quem tinha maior massa corporal. Então vinha à tona, automaticamente, a índole do assumido profissional da saúde: com preocupação no olhar, ele ajudava o outro a se erguer e – como um apreensivo paizão – fazia, ali mesmo, um rápido “exame clínico-traumatológico” na sua “vítima”.

Gabriel Pereira da Cunha pertenceu à primeira turma de médicos formados pela Faculdade de Ciências Médicas do Maranhão, em 1963. Ainda não havia Universidade. Chamada Turma João XXIII, foi uma homenagem ao Santo Padre da época. Há uma placa de bronze, no prédio da Faculdade, onde estão gravados os nomes desses pioneiros.

Com correr dos anos, Gabriel Cunha prosseguiu na sua saga de médico e professor. Muito fez pelo Maranhão. Ao lado de Clementino Moura, instalou e pôs em funcionamento o primeiro Banco de Sangue de São Luís, numa dependência da Maternidade Benedito Leite, na Rua do Norte. Foi também um dos fundadores da Academia Maranhense de Medicina, ao lado de Aymoré Alvim, seu ex-aluno, e de Antônio Nilo Costa Filho, seu ex-professor.

Mais tarde, foi também Superintendente do INAMPS.

Médico, ex-professor da UFMA, membro da SOBRAMES e da Sociedade Maranhense de História da Medicina.

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