Dr. Almir Nina

Os varões bem formados de espírito e coração dispensam ambiente especial para revelar a capacidade criadora, e até no acanhado torrão em que nascem e se desenvolvem, deixam na esteira de sua passagem o valor imortal da obra.

Tangidos muitas vezes, por acendrado amor à terra e à família, deixam os grandes centros, onde seu nome fatalmente seria projetado à fama de todo o país, para, na modéstia da província, apenas sob o ardor do estímulo inato, realizarem tarefa não menos gloriosa e não menos digna de ser relembrada para incitamente dos vindouros.

Almir Nina nasceu em São Luís, a 24 de julho de 1861, filho do comerciante João Gonçalves Nina e D. Rosa de Parga Nina.

Estudou os cursos primário e secundário na terra natal, sob os vigilantes e sadios cuidados pedagógicos de sua mãe, provecta educadora maranhense, criadora do famoso colégio primário “Nossa Senhora de Nazaré”.

Durante os descuidados anos de infância, pôde D. Rosa Nina, com amor e sabedoria, preparar solidamente o filho para o futuro. Não se limitou a dar-lhe excelentes condições ingênitos e alimentá-lo com a nívea energia dos seios; plasmou-lhe paciente o coração; incutiu-lhe o amor ao trabalho, e vigiou incansável o brotar da tenra inteligência. Foi trabalho silente, constante e alentado, que em prodigiosa intuscepção se confundiu com a própria personalidade do filho. Deve Almir Nina, a essa mãe admirável, o equilíbrio estável de sua luminosa trajetória.

A essa altura convém dizer algo sobre a personalidade dessa ilustre educadora maranhense, fundadora do colégio N. S. de Nazaré, (1864) um dos mais notáveis de nossa terra, que muita influência teve sobre a cultura maranhense, especialmente sobre o espírito de nosso biografado.

Nasceu ela em Itapecuru-Mirim, a 15 de maio de 1834, filha de Alexandre Pereira Lisboa Parga e Maria Isabel Gonçalves Nina.

Fez o curso primário com os professores Eusébio Barros e Carolina Cardoso. O curso complementar com o Prof. Luís Carlos Pereira de Castro.

O corpo docente de seu colégio era constituído da fina flor do magistério maranhense, a exemplo de Sotero dos Reis Augusto Correia e Pereira de Castro, que ensinavam a língua materna; Afonso do Nascimento e reis Tribuzi, desenho; Bandeira Hall, inglês; Temístocles Aranha, matemática; Velez Perdigão, caligrafia; Margarida da Costa, canto etc.

O colégio N. S. de Nazaré se transformou depois no Instituto Rosa Nina, sob os auspícios pedagógicos do Dr. Almir Nina, que lhe fazia a supervisão pedagógica, enquanto a direção era entregue à sua irmã Maria da Glória, para cuja função foi especializada na Europa.

O Instituto Rosa Nina era o campo de pesquisa, com o fim de introduzir métodos pedagógicos modernos trazidos por ele da Europa. Um dos frutos, foram os livros didáticos escritos e editados em São Luís, sobre os quais falaremos oportunamente.

D. Rosa Nina teve com João Gonçalves Nina, a seguinte descendência: Ida, Almir, Maria da Glória, José e Maria Regina.

 

NA FACULDADE DE MEDICINA DO RIO DE JANEIRO

Quando Almir Nina chegou ao átrio da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1877, mas parecia ela, no dizer de Fernando Magalhães, “um convento antiquado, degradado pelo tempo, com aspecto de presídio, pelas janelas engradadas de varões fortes. No pátio enlameado, crescia selvagem o horto botânico. As salas de aulas, com mobília pouca e quebrada, não tinham ar. A sala anatômica, revestida de tijolos, manchava-se de sangue coalhado e em torno de cinco meses, amontavam-se os alunos e os cadáveres mutilados. O gabinete de Física só dispunha de instrumentos quebrados; Biblioteca, escura, convida ao sono. As clínicas dependiam da administração da Misericórdia e só com grande esforço o ensino alcançava ligeiras concessões de liberdade”.

Há muito entretanto, Meireles havia conseguido a lei de 1832, transformando as Academias Médico-Cirúrgicas, nas Faculdades de Medicina da Bahia e do Rio de Janeiro, que passam a receber de Pedro II inestimável apoio e estímulo. Esta reforma havia provido a maioria das cadeiras com as figuras mais eminentes da Medicina nacional: Morais e Vale, Bonifácio Abreu, Caminhoá, Ramiz Galvão, Alvarenga, Pereira Guimarães, Sousa Costa, Pinheiro Guimarães, Sousa Lima e tantos outros.

Teve Almir Nina, já veterano, a fortuna de apreciar o grande movimento científico de 1881, que culminou com o famoso “Regimento Sabóia”,  banindo de uma vez por todas o velho e antiquado sistema de ensino médico…

Os três últimos anos já foram sob a direção do Visconde de Sabóia, autor de Regimento, e a alta expressão da cirurgia da época, “recebeu nesta gestão, a tradicional entidade”, conta Ivolino de Vasconcelos, extraordinário impulso, em geral florescente de atividades. Enriquecida no aparelhamento, aberta aos mestres novas possibilidades para o ensino das disciplinas e aos alunos propiciados os mais salutares estímulos, revivia a Faculdade, ao sôpro generoso do entusiasmo e capacidade realizadora daquele homem dinâmico, vibrante e organizador.

Defini-se o brilho de sua atuação, por fato único, nos anais da vida escolar da Faculdade: – É que, tendo principiado na Administração do Império, transpôs, no cargo, as portas da República, e, pelo novo regime, foi condecorado “Diretor Honorário” da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, mercê única, jamais anterior nem posteriormente concedida”.

Havia, entretanto, para os espíritos moços a escol atração do mais irresistível, espécie de tropismo científico: – Torres Homem, o catedrático de Clínica Médica. Era o maior clínico brasileiro e o mestre sem jaça; através de segura orientação semiológica e clínica, transformava fazia de cada aluno um amigo incondicional; suas preleções magníficas conseguia harmonizar a ciência e a beleza, dando à verdade, encantadora vestimenta, “Torres Homem,” diz Ivolino, “tinha o poder de facinar os espíritos amantes da perfeição, que, qual, mariposa atraída por clarão e sorvendo o neta recantado de sua bondade”.

Foi nessa atmosfera de renascimento científico pedagógico, que Almir Nina fez o curso médico. Fora o Patriarca da Medicina Brasileira o seu mestre… era completada, em ambiente de sabedoria e beleza, a tarefa iniciada por Rosa Nina!

Não menos digno fora o discípulo; tornou-se, quintanista, interno por concurso da cadeira do Barão; formado, recebe o honroso convite do mestre para ficar no Rio, ajudando-o na clínica particular e preparando-se para a cátedra.

Não aceitou, entretanto. Mal defendera tese, voltou para terra natal, e para o aconchego do lar querido.

A tese – Indicações e contra-indicações da pereirina e seus sais nas manifestações aguadas da malária – fez estudo original sobre a flora médica brasileira, e estudo novo específico para importante endemia de sua terra.

Rua São João, 265, Sala 402 – CEP 65010-600 
São Luís – Maranhão 
academiademedicinama@gmail.com