Medicina e Religião

Aymoré Alvim, AMM, ALL, APLAC.

O tema é, ao mesmo tempo, interessante e conflitante: Medicina e Religião.

Na minha concepção, a partir da leitura que faço, ambas mantêm de há muito, íntima ligação. Nasceram juntas quando das primeiras manifestações culturais do homem.

Caso nos projetemos, no tempo e no espaço, conforme orientação dos estudos paleoantropológicos, vamos verificar que a origem do homem, no continente africano, data de, aproximadamente, 5 a 4 milhões de anos.

A partir de então, o processo foi lento, gradual, mas progressivo.

Ancorado, principalmente, no volume cerebral, a partir do hominídeo Australopitheccus, passando pelo Homo habilis ou habilidoso, Homo erectus ou ergasto, iniciamos o percurso para o Homo sapiens arcaico que surgiu por volta de 800.000 anos atrás.

Em cada um destes estágios, embora não haja uma sequência lógica, os estudos conduzidos concluíram que o desenvolvimento cerebral parece estar diretamente ligado ao grau de criatividade e de percepção de mundo do homem primitivo.

O surgimento do Homo sapiens sapiens ou moderno ocorreu por volta de 120 a 100 mil anos atrás. O seu cérebro chegou ao máximo se comparado ao desenvolvimento do homem atual. Espécie como a Homo neandertalensis que por muitos anos conviveu com a anterior, embora seu volume cerebral fosse igual ou, às vezes, até maior, não apresentou, ao que se sabe, um desenvolvimento cognitivo semelhante ao do Homo sapiens sapiens.

Por volta dos 45 a 40 mil anos, em plena era do gelo, na última glaciação, os achados de relíquias concretas e renovadas, como se refere Jared Diamond, na Região de Cro-Magnon, ao sul da atual França, levaram à conclusão pelo desenvolvimento de uma população altamente desenvolvida que passou a ser identificada pelo nome da Região.

O aparecimento desse povo ocorreu de forma tão súbita que, para muitos arqueólogos, pela cultura que criou, estabeleceu um verdadeiro divisor de águas entre seus antecessores e predecessores.

Nas escavações realizadas, foi encontrada uma riqueza de material que de tão extraordinária tal evento mereceu de Jared Diamond o nome de “o grande salto para frente”. Peças de adorno, estatuetas, pontas de lanças trabalhadas em marfim, instrumentos musicais além de pinturas (rupestres) foram encontradas no interior de muitas cavernas.

Enterravam seus mortos com cerimônias e rituais que conduziram à conclusão de que esse povo tinha nítida noção da sua finitude e acreditava em outra vida após esta.

Estudos conduzidos com o objetivo de esclarecer essa brusca mudança concluem  que tais avanços se deveram a uma mutação genética ou ao crescimento do volume cerebral com gradativo aumento  do número de sinapses ou interligações em neurônios cerebrais.

As abstrações ou pensamentos abstratos que esse povo passou a desenvolver deram suporte a essas manifestações simbólicas que o levou ao entendimento de que na morte algo deixava o corpo das pessoas, o que bem mais tarde foi identificado como alma ou espírito.

Essas entidades se boas ou más, poderiam proteger ou causar males às pessoas.

Era preciso, portanto, identificar, na comunidade, indivíduos que possuíssem  o dom de se comunicar com os espíritos para que os invocando pedissem proteção contra os maus ou a cura das doenças, o que faziam usando magia e exorcismos. Eram eles os futuros pajés, xamãs, feiticeiros, sacerdotes curandeiros ou médicos, Nasciam, assim, ao mesmo tempo, a medicina arte e a religião.

Desde o inicio das civilizações que já estavam bem definidas as funções dos curandeiros e dos sacerdotes embora certos estados patológicos como a melancolia, depressão, loucura, estados convulsivos, cujas origens eram desconhecidas, foram atribuídos a castigos das divindades ou possessão de maus espíritos. Nesses casos, a intervenção era dos sacerdotes. Era a interdependência da Medicina com a Religião.

Tais concepções foram bem trabalhadas nas escolas gregas pelos filósofos, principalmente, em Cós, com Hipócrates. Para ele esses estados não dependiam dos humores divinos, mas de desequilíbrios das pessoas com o seu ambiente. Desta forma, Hipócrates começou a afastar a filosofia da religião e, consequentemente, desfazer o dualismo platônico de mente e corpo.

Na realidade, não houve, propriamente, uma separação das duas, mas uma definição de competência, sem contudo pretender acabar com a religiosidade das pessoas nem com as suas convicções religiosas e devoções aos seus deuses, santos protetores, seus orixás e seus espíritos de luz.

Atualmente, passou-se a entender que a religiosidade conduz as pessoas a uma mudança comportamental, trazendo-lhes paz interior, mais confiança que as predispõem a enfrentar suas doenças, serem mais colaborativas com o tratamento. E, assim, surgia a concepção do que chamamos espiritualidade que também é confundida, às vezes, com religiosidade, mas que por si tem importante valor na recuperação e manutenção do equilíbrio das pessoas consigo e com o ambiente em que vivem, o seu universo.

AMM, ALL, APLAC.

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