Netto Guterres, O Apóstolo.

Aldir Penha Costa Ferreira

Consta que, pelos idos de 1935, os serviços de saúde do governo do Maranhão não dispunham de leitos hospitalares destinados à assistência obstétrica. Havia apenas uma pequena maternidade mantida por um órgão filantrópico (Instituto de Proteção à Infância), e uma enfermaria (Sala Marques Rodrigues) na Santa Casa de Misericórdia. Então o diretor do Serviço de Saúde Pública, Dr. Tarquínio Lopes Filho, por sugestão do Dr. Clementino Moura, destinou alguns leitos do Hospital Geral para aquele fim. Tais leitos, localizados numa enfermaria especial (com sala de parto anexa), receberam o nome de Netto Guterres, “em homenagem ao velho médico que há pouco havia desaparecido e que relevantes serviços prestara à população de São Luís”. Mais tarde esses leitos foram incorporados à Maternidade Benedito Leite, mas isso é outra história.

Luís Alfredo Netto (ou Neto) Guterres, maranhense de Alcântara, veio ao mundo em 1880. Estudou no Liceu Maranhense, onde obteve a sua formação básica, e seguiu para o Rio de Janeiro, então capital da República, e ingressou na Faculdade de Medicina. Formou-se no ano de 1905, trabalhou na Santa Casa e foi assistente do famoso pediatra Dr. Cândido Barata Ribeiro, de quem teria recebido convite para permanecer na Capital Federal. O médico Cândido Barata Ribeiro depois se tornaria o primeiro prefeito do Rio de Janeiro.

Netto Guterres voltou para São Luís em 1906. Segundo o seu colega Clarindo Santiago, citado pelo historiador Carlos de Lima, “falou-lhe mais alto o sangue na voz celular do amor aos que lhe cercaram a infância”.

Em terras ludovicenses, logo o grande alcantarense se revelou um apóstolo da medicina. Consta que atendia a ricos e pobres, sem distinção de raça, cor ou posição social, não só no seu consultório, que funcionava num anexo de uma farmácia localizada no Canto da Viração, mas até na via pública. Mais: São Luís do Maranhão era, naquela época, uma cidade pequena e ele percorria as ruas a pé, quando saía para algum atendimento em domicílio.

Um profissional muito ativo. Foi médico do Exército Brasileiro, da polícia estadual e do serviço de pronto-socorro. Participou dos trabalhos para instalação da enfermaria de parturientes da Santa Casa de Misericórdia (Sala Marques Rodrigues) e, segundo a historiadora Maria de Lourdes Lacroix, “trabalhou exaustivamente e sem nenhuma remuneração extra para debelar as epidemias de varíola, de gripe espanhola e de peste bubônica, além de uma de carbúnculo que, veiculada pelas carnes oriundas do Matadouro Municipal, ameaçava a população consumidora”.

Segundo o historiador citado, a dedicação do Dr. Netto Guterres à prática da caridade era uma espécie de instinto. Não foi por acaso que ele se tornou conhecido como o “Médico dos Pobres”.

A sua trajetória entre nós não foi, porém, das mais longas. Vítima de uma infecção, provavelmente adquirida enquanto executava um ato cirúrgico, ele deixou o mundo físico em 1934. Eram transcorridos apenas seis anos desde a descoberta da penicilina por Sir Alexander Fleming.

Vivemos numa época em que a tecnologia vai substituindo, aos poucos, a sensibilidade do médico. Somos, porém, – e sempre seremos -seres humanos. O sofrimento faz, – e sempre fará-, parte da nossa condição animal.   Netto Guterres mostrou como lidar com essas coisas.

O antigo Largo do Hospital Geral, em São Luís do Maranhão, tem hoje o seu nome.

Médico, membro da Sociedade Maranhense de História da Medicina e da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – SOBRAMES.

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